Paulista

Por Albino Castro: Livro revela ‘face caché’ de Béla Guttmann

A sua ‘face caché’, revelada agora, completa e humaniza o quadro de um dos grandes heróis do futebol

Publicado em 12/02/2019
por - - ALBINO CASTRO

A expressão francesa ‘face caché’ significa, ao pé da letra, a ‘face oculta’ de alguma pessoa ou mesmo fato. Estas palavras aparecem regularmente nas manchetes da imprensa parisiense. Do prestigiadíssimo diárIo Le Monde, criado há 74 anos, ícone do pensamento gauchiste em todo o planeta, às revistas semanais, como a esquerdista Le Nouvel Observateur, fundada em 1964 pelo celebrado ensaísta Jean Daniel, de 98 anos, nascido na antiga Argélia Francesa, como o romancista Albert Camus (1913 – 1960), seu amigo.

Nada mais apropriado, portanto, do que usar a expressão para definir a revelação feita pelo recente livro publicado sobre um dos importantes protagonistas do futebol do século XX, o húngaro judeu Béla Guttmann (1899 – 1981), “The Greatest Comeback”, ou seja, “O Maior dos Retornos”, do escritor inglês David Bolchover, ainda sem versão em português.

ZAGUEIRO PRIMOROSO

A capa da obra ilustra a coluna. Sabia-se que foi um zagueiro primoroso, entre anos 1920 e início da década seguinte, surgido no popular MTK, de Budapeste, e legendário treinador quase até o final da vida, marcando época como bicampeão europeu (1961 e 1962) à frente do magnífico Benfica, quando lançou a ‘pantera’ Eusébio (1942 – 2014) – tendo feito sucesso também em outros grandes times, entre os quais, o italiano Milan, o tripeiro Porto, o magiar Honved, em 1956, durante excursão ao Rio de Janeiro, o uruguaio Peñarol e no São Paulo, campeão paulista de 1957.

O que nunca se soube, porque Guttmann sempre omitiu, é como teria sobrevivido, na Segunda Guerra (1940 – 1945), à ocupação da Alemanha nazista à sua Budapeste natal - onde se encontrava quando as tropas de Adolf Hitler (1889 – 1945) invadiram o país e mais de 400 mil húngaros judeus foram deportados para o campo de concentração polonês de Auschwitz.

OUTRAS OBRAS

A ‘face caché’ do mítico personagem, que transcende o universo do futebol, foi revelada por Bolchover – ao contrário das duas biografias anteriores: “A História de Béla Guttmann”, de seu compatriota Jenö Csarnády (1924 – 2001), ex-técnico, publicada em português, em 1964, pela editora lisboeta Livraria Bertrand, e “Béla Guttmann – Uma lenda do futebol do século XX”, do alemão Datlev Claussen, de 70 anos, editada em 2006 pela berlinense Verlag, ganhando oito anos depois uma esmerada tradução no Brasil.

Bolchover conseguiu levantar, através de muitas pesquisas, inclusive nos arquivos alemães, que Guttmann, ao perder o emprego no húngaro Ujpest, em 1939, por ser de família israelita, apesar de ter sido campeão, permaneceu no país, por temer pior sorte na Áustria, Itália ou França – também ocupados e, nos quais possuía inúmeros amigos.

ESCONDIDO NO SÓTÃO

Escondeu-se, nos primeiros três anos, no sótão de um salão de cabelereiro na própria cidade de Ujpest, porém, foi localizado e levado para um campo de concentração nos arredores de Budapeste, quase ao término do confronto, quando os alemães apertaram o cerco à Hungria.

Teria escapado, conforme Bolchover, por uma janela juntamente com mais cinco presos. Antes de “The Greatest Comeback” se acreditava que Guttmann teria superado os anos da ocupação de Budapeste porque havia se refugiado na Suíça, onde, segundo Csaknády e Claussen, gozara de certa tranquilidade, enquanto seis milhões de judeus, como ele, eram implacavelmente mortos. O que Bolchover não esclarece é por que ele resolveu silenciar sobre suas agruras na Segunda Guerra.

DECISIVO NO BENFICA


Guttmann foi uma figura decisiva para a formação do maravilhoso Benfica de sua época, base da futura seleção portuguesa que fez memorável campanha na Copa do Mundo de 1966. Também ajudou o Brasil a implantar o sistema tático 4-2-4 e, assim, conquistar o Mundial de 1958.

Era superintendente do São Paulo, no ano anterior, o paulistano Vicente Feola (1909 – 1975), técnico brasileiro na Copa do Mundo de 1958, que aplicou o mesmo método aprendido durante os treinamentos do São Paulo – e trouxe para a casa a primeira das cinco copas brasileiras.

OUTROS HUNGAROS

Mais húngaros fizeram história no Brasil à beira do gramado. Como, dentre outros, Izidor ‘Dori’ Kürschner (1886 – 1941), que introduziu o sistema WM no País, quando conduziu o Flamengo e o Botafogo, entre 1937 e 1939, o ex-goleiro do Ferencvaros, de Budapeste, Ignác Amsel (1899 – 1974), no São Paulo em 1938.

Gyula Mándi (1899 – 1969), em 1957 e 1958, no carioca América, e Janus Tratay (1922 – 2011), único que não era judeu – e consagrou-se em todo o Nordeste, nas décadas de 1960 a 1970, treinando o Campinense e o Treze, ambos da paraibana Campina Grande, para além do Ceará, Sport do Recife e o Bahia.

Guttmann faria 120 anos no último dia 27. Foi o maior dos mestres húngaros e, talvez, do mundo. A sua ‘face caché’, revelada agora, era um segredo até então bem guardado, que completa e humaniza o quadro de um dos grandes heróis do futebol.