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Oitenta anos da estreia do futebol feminino no Estádio do Pacaembu

Este texto é de autoria de Dóris Régis e Juliana Pons, assistente de documentação e museóloga do Centro de Referência do Futebol

Publicado em 17/05/2020
por Agência Futebol Interior

Campinas, SP, 17 (AFI) - Em 17 de maio de 1940, menos de um mês após sua inauguração, o Estádio do Pacaembu foi palco de um jogo de futebol feminino. As equipes cariocas Sport Club Brasileiro e Casino Realengo Futebol Clube disputaram uma intensa partida, que terminou com o placar de 2X0 para o Brasileiro. Conheça a história desse

O Casino do Realengo e o S.C. Brasileiro
Pouca gente se lembra e algumas gerações nunca souberam desse fato, mas já na década de 1940 dois times de futebol feminino do subúrbio carioca, populares por seus feitos em campo, foram convidados a realizar uma partida na prévia de um São Paulo X Flamengo masculino no recém inaugurado Estádio Municipal.

Antes desse jogo no maior estádio do Brasil, o futebol feminino já tinha explodido na então capital federal, o Rio de Janeiro, entre o final da década de 1930 e o início dos anos 1940. E os jornais cariocas da época acompanhavam tudo, embora com opiniões bastante divergentes a respeito do jogo e comportamento das “moças”.

Em 1940, a criação de equipes e os jogos femininos eram noticiados com frequência nos jornais. Neste ano foi criado o S.C. Brasileiro, time de Cascadura que abalou a fama do Casino do Realengo F.C., criado duas décadas antes, em 14 de novembro de 1921, no bairro de mesmo nome. Até então, ele carregava a fama de maior time carioca de mulheres.

Com as cores branco e preto na camisa, o Casino do Realengo passou a ter um time de futebol constituído por mulheres a partir de 1930. Por nove anos, o clube existiu como salão de festas, espaço de encontro e socialização, promovendo bailes de dança.

Após a criação do time e a organização de eventos esportivos entre clubes femininos cariocas, o Casino do Realengo passou a ganhar notoriedade na imprensa pelo destaque nas vitórias e pela performance das mulheres. Sob os títulos de jogadoras “graciosas”, os jornalistas — homens — insistiam em ressaltar a “delicadeza feminina” ao jogar.

A equipe do Casino do Realengo era composta por jogadoras como a goleira Inah, Dionée, Detinha, Tetoca, Rosinha, a meia-atacante Targina Brilhante, a centroavante Ivan e outras. O time, que já carregava um legado do futebol feminino no subúrbio, contribuiu para a formação de novas equipes.

Jornal A Noite (RJ), 30 mar. 1940, p. 7
Jornal A Noite (RJ), 30 mar. 1940, p. 7
MAIS DETALHES
Na comemoração dos seus oito anos de existência, em 1939, o clube viabilizou um festival esportivo no campo de sua sede. Mantendo o costume de homenagear os diferentes veículos de imprensa esportiva que promoviam a visibilidade de suas atividades, na ocasião foi a vez do periódico A Tarde.

O clube jogou contra uma equipe feminina, ainda sem nome, uniformizada com as cores azul e branco, vinda do bairro de Benfica, formada por frequentadoras do Sport Club da região. O jogo contra o Casino do Realengo foi um incentivo para as moças estreantes criarem uma nova equipe feminina, que viria a ser reconhecida depois como S.C. Benfica.

O S.C. Brasileiro de 1940, composto por algumas das ex-jogadoras do S.C. Benfica como, por exemplo, Filhinha, Adyragram, Margarida, Nicéa, Sarah e outras, se tornou, em pouco tempo, o time que destronou o Casino do Realengo do posto de melhor time de mulheres do subúrbio do Rio de Janeiro, como veremos mais à frente.

Por mais que o S.C Brasileiro não fosse reconhecido como um time tradicional, até mesmo por sua recente criação, as jogadoras que o compunham eram experientes no jogo, vindo de times como o S.C. Benfica e o Ypiranga F.C. de Niterói.

No dia 3 de março de 1940 ocorreu o primeiro amistoso entre o Casino e o Brasileiro: o resultado da partida pendeu para o auriverde S.C. Brasileiro com uma vitória de 1X0 com gol da lateral esquerda, Nicéa. O jogo virou e, agora, o Casino do Realengo dividia sua fama com o recém criado Brasileiro. Em março de 1940, após poucas partidas contra o Casino, as meninas do S.C. Brasileiro estavam invictas no cenário do futebol feminino.

Ao longo deste ano, os encontros entre os dois times do subúrbio carioca foram se tornando mais frequentes. Dessa forma, uma rivalidade entre os times foi sendo criada ao longo dessas partidas. A imprensa esportiva registrava os jogos realizados e, ao mesmo tempo em que comparava o amadorismo na prática feminina ao “lero-lero” dos “barbados”, ressaltava que as pelejas entre as mulheres demonstravam mais profissionalismo por parte das jogadoras do que no caso dos rapazes.

Na festividade realizada em homenagem ao Jornal dos Sports, dirigido pelo jornalista e cronista Mário Filho, o periódico cita o tão aguardado jogo entre os dois melhores times femininos do subúrbio, uma “sensacional prova de moças” como apontam na página 7 da edição 3.267 daquele ano.

CONVITE E A VIAGEM!
Ao mesmo tempo em que alguns veículos da imprensa se mobilizaram para dar visibilidade à prática esportiva desempenhada por mulheres, outros promoviam notícias que as desqualificavam, minimizando seus atributos esportivos com o intuito de inviabilizar a atividade.

Dentre eles, periódicos como Jornal da Noite, A Nação e O Imparcial. Alguns deles, inclusive, abriram espaço para que autores reconhecidos, como José Fuzeira, com livros publicados sobre a conduta social e moral do indivíduo, declarassem seu posicionamento contrário à prática esportiva do futebol por mulheres.

Em carta publicada no Jornal da Noite, periódico carioca, e tendo como destinatário o presidente Getúlio Vargas, Fuzeira critica veementemente a prática esportiva do futebol por mulheres e dá ênfase a um dos mais reconhecidos jogos entre as rivais de Realengo e o Brasileiro.

Por mais que houvesse críticas em alguns dos jornais da época, o destaque dos times do Casino do Realengo e S.C. Brasileiro pelo desempenho que ambos vinham alcançando nos jogos avulsos e campeonatos, era valorizado e enaltecido por outros veículos como, por exemplo, A Batalha, O Radical, Correio Paulistano e o Jornal dos Sports.

Este último, foi o responsável por patrocinar a viagem das jogadoras dos dois times à cidade de São Paulo para um confronto no então maior estádio do país: o recém-inaugurado Estádio Municipal do Pacaembu.

De acordo com a notícia veiculada pelo O Radical, o Casino do Realengo e o S.C. Brasileiro, “as duas mais credenciadas expressões do football de moças”, foram convidados pelo São Paulo F.C. e por intermédio de Carlos Gonçalves, a protagonizar o primeiro jogo de futebol feminino no Estádio Municipal.

O jornal aponta ainda que os times “não tiveram outra intenção senão a de proporcionar aos espectadores do sympathico centro desportivo a oportunidade de admirarem uma peleja de características inéditas (…)”. O jornal seguiu junto com a delegação em viagem de trem com destino à São Paulo.

Do boca-a-boca, passando pelas notícias de jornais, até alcançar um convite para jogar no Estádio Municipal, construído no contexto do Governo Vargas, as meninas do Casino do Realengo e do S.C. Brasileiro protagonizaram um momento histórico para o futebol e deixaram registrada no Estádio do Pacaembu a garra feminina pelo reconhecimento dos seus clubes.

O JOGO
O esperado dia chegou. Na sexta-feira, 17 de maio de 1940, as auriverdes e as alvinegras fizeram uma das mais memoráveis partidas de sua história. O jogo acontecia pouco menos de um mês após a inauguração do Pacaembu e seria a preliminar de São Paulo X Flamengo, uma revanche solicitada pelo Tricolor Paulista, que perdera por 2X0 para o Rubro-Negro Carioca, três dias antes.

Para o histórico jogo, a equipe do S.C. Brasileiro optou por estrear o seu novo uniforme: uma camisa listrada nas cores verde e amarela separadas por listras, mais finas, na cor branca. Na delegação da equipe estavam o chefe Demerval Santos, o treinador e diretor Oscar Leal, a secretária e massagista Zuleide Jesner e representantes dos jornais O Radical e Jornal dos Sports, além da Federação Athletica Suburbana.

Já com o time do Casino Realengo estavam seu presidente, Amaury Paes Leme, o diretor de esportes Gustavo Ramos, o secretário Fernando La Vieira e a treinadora D. Rita (ALMEIDA, 2017. p. 43).

Com início às 19:45, o amistoso entre as duas maiores equipes cariocas femininas foi vencido pelo S.C. Brasileiro pelo placar de 2X0, com gols de Zizinha e Sarah. A arbitragem ficou com o veterano Oscar Paolillo, de São Paulo. A renda total da noite foi de 160 contos de réis, e entre as 65 mil pessoas presentes, ainda houve a ilustre presença de Leônidas da Silva, estrela do jogo principal, mas que fez questão de acompanhar a preliminar.

A partida chamou a atenção do Correio Paulistano, que destacou as diferenças entre os jogos masculino e feminino. Além da redução de tempo para duas partes com 30 minutos, os uniformes e a bola foram adaptados. Em 19 de maio de 1940 (p. 18), o jornal afirmou:

“Veio o jogo e com ele o público se surpreendeu. Pensava-se — e isso era natural, que fosse uma partida morosa e sem orientação. Um grupo de moças correndo atrás da bola e depois, para finalizar, o cansaço geral.

Nada disso se deu. A indumentária usada é muito mais leve que a dos homens. Nada de chuteiras cheias de pregos e travões, joelheiras, tornozeleiras e caneleiras. Tudo simples. Os sapatos são leves, de couro e sola mista, usados para ser empregados na grama sem o perigo de escorregar. A bola, como as de cestobol.

Evidenciou-se que o padrão já usados por elas é apreciável. Observam bem os regulamentos e sabem manter as suas colocações com inteligência: passam e marcam bem. Apenas nas fintas ainda lhes falta um domínio mais seguro da pelota, deixando-a adiantar-se muito, dando azo a que os adversários possam arrebatá-las com mais facilidade.
Algumas das jogadoras demonstraram grande aproveitamento do futebol e se destacam como valores reais. Elementos que, comparativos com os homens, poderiam jogar em segundo quadro…

Aí está o que vimos anteontem, no Estádio do Pacaembu. Um jogo movimentado, vivo, e com bons predicados técnicos entre moças entusiásticas e inteligentes.”

O jogo também foi elogiado pelo correspondente do jornal carioca O Radical, Waldemar Silva. O jornalista, em 21 de maio de 1940, chegou até a dizer que:

“Posso mesmo afirmar, segundo opiniões escutadas por mim, nas rodas esportivas-paulicéia que, a maioria do público, foi até aquela praça de esportes para apreciar as representantes do Distrito Federal. (…) Da exibição em causa, apenas garanto que entusiasmou completamente a enorme assistência que aplaudiu delirantemente as filhas de Eva. O resultado técnico da partida findou com o placard acusando o score de 2X0 em favor do S.C. Brasileiro, clube de como já disse em anteriores reportagens, possuidor de melhores arrematadoras e mais oportunistas.”

Waldemar Silva ainda trouxe uma informação não divulgada sobre a realização do jogo. O juiz de menores Dr. Oliveira Cruz alegou, dias antes, que duas atletas do Casino Realengo não poderiam atuar no Pacaembu, visto que tinham menos de 15 anos e não haviam sido examinadas por um médico:

“A exibição dos teams femininos no Pacaembu esteve por muitas horas ameaçada de não ser realizada. É que o juiz de Menores da capital, Dr. Oliveira Cruz negou licença, por intermédio do despacho nº 28.882 dado numa petição dos pais, permissão para que duas meninas do Casino tomassem parte no encontro sob a alegação de que as mesmas eram muito pequeninas e não possuírem mais de 15 anos, nem terem sido examinadas rigorosamente por um médico. Bem. Mesmo assim, com despacho contrário dado pelo citado juiz a noite, a força talvez da intervenção de amigos seus ou padroeiros do São Paulo F.C. as duas meninas entraram no team e se desempenharam maravilhosamente bem: quer assim ficar patenteado que o despacho de juiz foi vencido pela força do sport.”

A excursão seguiu para a cidade de Santos, a convite do Santos F. C. E no Estádio da Vila Belmiro, o Casino Realengo venceu o S. C. Brasileiro pelo placar de 1X0.

RETORNO AO RIO
As equipes voltaram para o Rio de Janeiro pouco tempo depois. Em 21 de maio, o Jornal dos Sports, patrocinador da excursão, noticiou a chegada das jogadoras e o sucesso da viagem:

“Chegaram ontem a nossa cidade as delegações do Casino do Realengo e do S.C. Brasileiro, que, sob o patrocínio do Jornal dos Sports disputaram duas partidas em terras bandeirantes, sendo uma em São Paulo e outra em Santos.

Ao desembarcarem na estação Alfredo Maia, as componentes da equipe do S.C. Brasileiro falaram do tratamento cavalheiresco que tiveram durante a sua excursão. Sarah Paradanta disse-nos que reinou sempre a maior camaradagem entre as equipes do seu clube e o do Casino de Realengo.

Até as vitórias foram divididas. Em São Paulo, no estádio de Pacaembu venceu o S.C. Brasileiro, por 2 x 0.

Em Santos, em Vila Belmiro, a vitória sorriu ao Casino do Realengo, pela mínima contagem. Um a zero foi o “placard” final no match. Foi uma reunião em que as equipes femininas constituíram a atração única. E a receita arrecadada pelos promotores da exibição — dez contos de réis — fala bem eloquentemente do interesse que reinou pela partida.”

“Proibidas as mulheres de jogar futebol”
Apesar dos elogios de parte da imprensa, o futebol feminino continuava alvo de críticas e questionamentos. A carta escrita por José Fuzeira em maio era um prelúdio do que estava por vir. Pouco mais de um ano após a partida no Pacaembu, a proibição do futebol feminino estampava as manchetes dos principais jornais do país.

E o futebol feminino só voltou ao gramado do Pacaembu no ano de 1959, em um jogo conhecido como “Jogo das Vedetes”. A partida, realizada com as estrelas do teatro de revista de São Paulo e do Rio de Janeiro, só foi autorizada pela justiça por possuir um caráter beneficente para a Casa do Ator. A proibição do futebol feminino durou até o ano de 1979, mas as mulheres só voltaram a atuar legalmente no Brasil em 1983, data em que a regulamentação da prática foi aprovada.

Desde 2008 o Paulo Machado de Carvalho vem sediando jogos de futebol feminino com constância, e a modalidade deixou de ser exceção. Partidas pelos Campeonatos Paulista e Brasileiro, além de jogos da Seleção Feminina. Aliás, o estádio virou praticamente a casa da Seleção Brasileira.

No século XXI foram 19 jogos no Pacaembu, quase todos pelo tradicional Torneio Internacional Cidade de São Paulo. Após tanto tempo sem jogos de mulheres no estádio, é preciso tirar esse atraso… E que muitas partidas ocorram pelos próximo anos.

FICHA TÉCNICA
S.C. Brasileiro 2 X 0 Casino Realengo F.C.
Amistoso

17 de maio de 1940, 19:45
Estádio do Pacaembu
S.C. Brasileiro: Filhinha, Adiragram, Margarida, Elsa, Marina, Ivette, Izolina, Ophélia, Zizinha, Sarah e Severina (D. T. Oscar Leal).
Casino Realengo F.C.: Inah, Dyone, Tetóca, Betinha, Targina, Rosinha, Iza, Edith, Maninha, Tita e Ivana (D. T. Dona Rita).
Gols: Zizinha, Sarah